O sujeito precisa dizer algo de si, definir-se enquanto ser existente. O sujeito da linguagem se representa por meio dos significantes que lhe são entregues, realizando, para isso, também uma escolha das palavras.

Os significantes são originariamente concedidos pelo Outro, e o sujeito é, antes de tudo, falado por ele — antes mesmo de adquirir a capacidade de falar por si.

O sujeito realiza, então, um equívoco: identifica-se narcisicamente com a palavra X ou Y (por exemplo, ao dizer: “eu sou isso, e não aquilo”).

Ele necessita desse equívoco, dessa construção imaginária, para existir diante do Outro e ser representado pela palavra. É o modo como se coloca em jogo, adquire uma modalidade de gozo e projeta o desejo — é, em suma, a forma como escolhe estar em relação com o Outro.

A questão do “desejo próprio” é sempre discutível.

Se é o Outro quem lhe entrega as palavras e o insere na linguagem, é também o Outro quem lhe fornece os brinquedos com os quais se estabelece o jogo (jouissance, em francês).

Ao escolher estar representado pela palavra X, o sujeito se posiciona em uma categoria de gozo previamente determinada pelo Outro. Quando afirma “eu sou X, não Y”, ele revela a estrutura de alienação na qual foi inserido.

Essas palavras atuam como significantes-mestres, produzindo efeitos de ordem, Lei e regra — a partir dos quais ocorre o assujeitamento (submissão, obediência, tornar-se sujeito). O sujeito, então, assina o contrato de conformidade do personagem que deseja encenar.

Sua tarefa diante do Outro passa a ser a de sustentar o papel que lhe foi atribuído.

Se o sujeito escolhe ser “X, e não Y”, é porque entende que “ser X”, nessa modalidade de gozo, significa tornar-se o objeto de amor do Outro. Enquanto sustentar essa posição, será desejado, reconhecido e aceito pelo Outro.

Quando falhar nessa função — quando não puder mais sustentar essa posição, sendo, por exemplo, Y em vez de X —, sofrerá as consequências da exclusão, do desamor, do não reconhecimento e do desamparo.

Assim, quando o sujeito fala de si, representa também a estrutura de alienação na qual foi inserido, a modalidade de gozo à qual precisou se submeter para ser reconhecido como sujeito.

O sujeito embaraçado — enredado em uma teia de complicações — é aquele que reconhece parcialmente as armadilhas e amarrações, ainda que, a princípio, não esteja consciente delas, ou não saiba como resolver a incógnita do desejo do Outro, saindo da posição de objeto de gozo.

A análise busca evidenciar essa rede de significantes: a cadeia simbólica responsável pelo aprisionamento do sujeito, pela fixação em identificações imaginárias que limitam as possibilidades de ser e de estar com os outros de outro modo.

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